terça-feira, 4 de agosto de 2020

A ESTÉTICA DO FATO

As técnicas literárias no meio noticioso

Truman Capote, grande nome do "new jornalism"

         New jornalism (ou novo jornalismo) é o nome dado ao estilo de texto jornalístico que segue padrões literários quando reporta os acontecimentos. "A estética do fato", como dizia o jornalista brasileiro Alberto Dinis. O estilo ganhou popularidade na década de 50 com o artigo sobre o ator Marlon Brando, "O duque em seus domínios", escrito por Truman Capote para a revista The New Yorker.

        "A escrita tem as suas próprias leis de perspectiva, de luz e de sombras. Como a pintura e a música. Se nasces com elas, perfeito. Se não, aprende-as. Em seguida, reorganiza as regras à tua maneira" - Truman Capote.

        Ao lado de Truman Capote, Gay Talese, Norman Mailer, e Tom Wolfe são outros ícones do new jornalism. Para Wolfe, o objetivo da técnica é oferecer ao leitor um texto tão emocionante quanto uma trama ficcional.

        Os primeiros parágrafos que Gay Talese escreveu para a revista Esquire, em abril de 1966, a respeito de Frank Sinatra, servem como um ótimo exemplo de novo jornalismo:

Frank Sinatra está resfriado 

Gay Talese 

       Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folk rock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa ideia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu quinquagésimo aniversário. 

        Sinatra estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação da imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow, então com vinte anos, que aliás não deu as caras naquela noite; estava furioso com um documentário da rede de televisão CBS sobre a vida dele, que iria ao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular sobre suas ligações com os chefes da máfia; estava preocupado com sua atuação num especial da NBC intitulado “Sinatra - Um Homem e Sua Música”, no qual ele teria de cantar dezoito canções com uma voz que, naquela ocasião, poucas noites antes do início das gravações, estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a considera banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado. 


Norman Mailer e Muhamed Ali

       Só para fugir a regra dos arrumadinhos do new jornalism, que são quase todos os autores clássicos desse estilo, preciso fazer menção a Norman Mailer, que representa mais o cidadão comum, tanto no comportamento como na maneira de se vestir. Norman chamou a atenção em 1948 com seu livro "Os Nus e os Mortos", falando sobre suas experiências na segunda guerra mundial, e foi duas vezes vencedor do prêmio Pulitzer, com "Os Exércitos da Noite", sobre as manifestações contra a guerra do Vietnã, e "A Canção do Carrasco", a história do condenado a morte, Gary Gilmore. Mailer gerou polêmica na década de 70 ao supor no seu livro "Marilyn", que o FBI e a CIA teriam agido em conluio para assassinar Marilyn Monroe.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

DEZESSEIS DIAS COM SANTOS DUMONT

Relato integral do repórter Ernesto Senna sobre os dias que passou com o pai da aviação brasileira

        Ernesto Senna foi um repórter carioca que não dispensou a proposta feita pelo jornal onde trabalhava, o extinto Jornal do Commercio, de acompanhar a visita de Santos Dumont ao Rio de Janeiro. Não foi por acaso que escolheram Senna para essa missão. Ele possuía um estilo muito distinto de narrar suas histórias. Algo que se enquadraria mais tarde no caráter do new jornalism. Por esse motivo, há quem chame Senna de percursor desse estilo de jornalismo no Brasil.

        O texto:

 
Ernesto Senna (1958/1913)
         Santos Dumont: magro, rosto alongado, olhos irrequietos e poucos vivos, emoldurados por uma aureola vermelha, com vestígios de suas alongadas vigílias de pesquisa. Bigode de pontas aparadas e curtas. Lábios deixando entrever uma carreira de dentes muito alvos, cumpridos e uniformes. Nariz afilado e pequeno de narinas dilatadas, orelhas pouco grande de lóbulos ligados a face. Cabeça pequena, pouco abundante cabelo, repartido no meio e emplastado pelos mais finos cosméticos. Calado, se move rapidamente, com a cabeça pendida para o lado direito, lançando um olhar de soslaio, sempre desconfiado, como quem comumente se sente despertado por um movimento estranho e desconhecido. Repetidamente movido por um cacoete nervoso, repuxa rapidamente o lábio superior para baixo. Sentado, dobra sempre a perna direita e comprime o joelho com a mão esquerda. Seu andar é sempre apressado, e tem por hábito, enquanto caminha, conservar os braços para trás das costas, apertando a mão direita contra a esquerda, e assim chega a andar 140 metros por minuto sem se fatigar. É um caminhante incansável. A não ser em casos de cerimonia, quando sobe a escada normalmente, galga qualquer escada de três em três degraus. Lépido, ligeiro, tem uma agilidade definidamente felina. Fala sempre apressadamente, e quando qualquer coisa o desagrada, repete: "não, não e não, absolutamente, não!". Tem o bom gosto de detestar joias, mas está sempre embebido nos melhores perfumes. Dumont é um tanto fetichista em relação ao seu chapéu panamá, que ele usa para baixo em abas irregulares. Afinal, foi com esse chapéu que em uma de suas acessões a Paris ele conseguiu abafar a explosão e o fogo que irrompera em um de motores, se mantendo com aquela calma que é tão peculiar, à partir de então, nunca se afastou desse chapéu. Desde esse dia memorável, consagrou ao chapéu todo o afeto e passou a considerá-lo uma espécie de mascote. Quando às vezes fatigado, se reclina e procura uma maneira de pousar, coloca o chapéu panamá sobre o rosto e adormece. E é a maior distinção que pode fazer a uma visita, adormecer em frente dela. Dumont só consegue conciliar com o sono estando na mais completa escuridão. Por menor que seja a réstia de luz, ela o incomoda, produzindo então uma profunda irritação. Ele só consegue se recuperar dessa sonolência irriquieta e de seu fácil despertar, quando está envolto na mais profunda escuridão. Por uma idiossincrasia que nem ele mesmo sabe explicar, tem um mal ouvido para música, não distinguindo sequer, entre uma valsa uma polca, ou um hino. Fala com profunda correção e sem nenhum sotaque, o francês, o inglês , o italiano e o espanhol, sem afetação nenhuma, como se tivesse nascido falando essas línguas. Adora flores, assim como os gatos, aos quais nunca dispensa muito carinho, e com os quais brinca efusivamente. Deita-se quase sempre a meia-noite, e acorda às seis da manhã, para o seu habitual passeio, esteja aonde estiver, e caminha sempre no ritmo vertiginoso já descrito. Santos Dumont na intimidade é alegre, brincalhão, é expansivo, e não se nota nele o menor vislumbre de vaidade ou de orgulho, apesar de seu muito reservado em suas opiniões. Jamais, diz ele, pronunciarei um só discurso. Sei me mover muito bem nos ares, mas não sei me mover nessa cerimonias nas quais querem me envolver. Escreve sempre com uma pena de pato, que ele mesmo produz e mantém em estoque onde quer que esteja. É sóbrio e muito parco na sua alimentação, e seu manjar predileto é camarão com quiabo. Adora bebidas alcoólicas, nunca almoça sem cerveja, nunca janta sem vinho e jamais deixa de consumir, aonde quer que seja, o melhor champanhe. 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

O TRISTE FIM DE UM GRANDE ESCRITOR

        Em 20 fevereiro de 2005, às 17h15, Hunter S. Thompson morreu por um tiro auto-infligido de sua arma favorita, uma pistola automática Colt, calibre .45. Provavelmente sentindo o desgaste do tempo, acelerado pelo alto consumo de álcool e drogas, ele não viu outra alternativa para seu declínio físico e mental, aos 67 anos.

Hunter S. Thompson em Woody Creek. Fonte da imagem: Rolling Stones

        Durante muitos anos Hunter S. Thompson se incumbiu de manter seu personagem de escritor drogado, e isso pode ter lhe custado mais do que se imagina. Quando jovem ele produziu muitas materiais de qualidade, como Hell's Angels, e poderia ter feito mais obras memoráveis nesse período de sua carreira, com menor consumo de drogas.

        Desde jovem ele flertava com o suicídio, e segundo suas ex-esposas, era um assunto que entrava em pauta com frequência nas discussões. Embora isso seja verdade, e haja registros de pensamentos suicidas em sua obra, penso que se todos tivessem tido maior responsabilidade com a sua situação com o vício em abuso de substâncias tóxicas, teríamos um final diferente, menos deplorável para Hunter.

        Johnny Depp, que sempre se disse próximo de Hunter S. Thompson, e que atuou em um filme interpretando um de seus personagens, pagou todo o funeral do escritor. Como era o desejo de Hunter, suas cinzas foram lançadas em um foguete sobre os morros de Aspen, no Colorado, acima de uma imensa torre com o simbolo do gonzo jornalismo.

Hunter S. Thompson e seu neto, William

         No Brasil as obras publicadas do autor são: Medo e Delírio em Las Vegas, Screw-Jack, Hell's Angels, A Grande Caçada aos Tubarões, Reino do Medo, e Rum, Diário de um Jornalista Bêbado. 

A ORIGEM DOS GATOS

Nunca subservientes, eles vivem há milhares de anos em parceria com a humanidade

Ilustração de um poema italiano de 1822 
        Há aproximadamente 4 mil anos os gatos convivem juntos com a humanidade. Saídos do Egito,  eles se espalharam pelo Mediterrâneo, contrabandeados por piratas fenícios, por volta de 2500 anos atrás, e depois foram levados para Europa pelos vikings, que os usaram como rateiros nas embarcações.

        Os gatos são os felinos mais bem sucedidos, havendo cerca de 450 milhões deles no mundo, sendo que existem gatos em praticamente todas as terras habitadas pelo homem. Sua parceria com a nossa raça sempre foi muio útil para ambos. No Egito, eles auxiliaram se alimentando dos ratos que comiam os grãos das plantações. Mais tarde, contribuíram combatendo pragas nos navios, e também diminuíram consideravelmente o alastre da peste negra na Europa. Hoje o gato doméstico serve quase somente para estimação.

         Mas não se engane, o gato ainda é uma máquina de caçar. Capaz de enxergar em uma luz seis vezes menor do que um humano, eles de possuem, dentro outras capacidades, um arranjo muscular, esquelético e de ligamentos, que o permitem ter seu equilíbrio e sua agilidade tão desenvolvidas. Um ser humano com a musculatura de um gato, por exemplo, conseguiria saltar em cima do telhado de uma casa, sem esforço.

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Arte de Marianne C. Gourary
        As características físicas e o comportamento dos gatos domésticos ainda se mantém os mesmos do  seu descendente, o gato selvagem libanês, que vive no norte da África. Hoje no total existem 37 variedades de gatos pelo mundo. Por não precisarem de camuflagem para sobreviver na natureza, os gatos de hoje podem ser encontrados em uma variedade enorme de tons pelo. 

        O gato é um dos animais domésticos que mais tem ligação com seu lado selvagem. No caso de um gato filhote ser criado sem convivível humano, ele consegue sobreviver  tranquilamente sozinho na natureza, arredio aos humanos. Na Grécia, por exemplo, muitas cidades são habitadas por gatos selvagens que vagam soltos pelas ruas. É sempre indicado que seja dado carinho e atenção ao gato filhote, antes dos seis meses, porque se isso não acontecer, ele se tornará um gato selvagem.
       
          No Egito ainda existem gatos selvagens semelhantes aos primeiros gatos domesticados pelo homem, vagando pelas ruas e sobrevivendo em meio ao deserto, se alimentando de pequenas presas.


quinta-feira, 30 de julho de 2020

O QUARTO PODER

         Foi no século XIX que o barão Thomas B. Macaulay, em um debate da câmara dos deputados, se virou para uma pequena repartição onde estavam alguns jornalistas, apontou seu dedo gordo e disse, "ali está o quarto poder". Macauly, que também era historiador e escritor de mão cheia, estava colocando a mídia daquela época ao lado dos três moderes (legislativo, executivo e judiciário), tamanha sua força de influência na organização social já naquela época. O título de quarto poder pegou, e é usado até hoje para se referir a grande mídia.

          Em 1859, Thomas B. Macaulay morreu só de meias em um duelo, poucos dias antes de completar 60 anos. O barão nem sonhava que os meios de comunicação cresceriam tanto, e  nem tinha como pensar em rede mundial de computadores. Mas se ele fosse vivo hoje, com certeza concordaria com o jornalista Paulo Henrique Amorim, que disse que mídia não é mais o quarto poder, mas o primeiro, porque tem todos os outros na palma da mão.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

BÁRBAROS DO FIM DO MUNDO

Os Hell's Angels ainda espalham terror por onde passam


Hell's Angels de São Francisco na década de 80. Fonte: Wallpaper Up

        Os Hell's Angel são a mais famosa gangue de motoqueiros do mundo. Surgiram no final dos anos 40, com um conceito próprio de liberdade. Montado em suas motocicletas, modificadas por eles para dar o máximo nas estradas, os angels tentaram viver como bárbaros a margem da sociedade norte-americana, espalhando o caos por onde passavam. Hoje grupos dos Hell's Angels estão espalhados pelo mundo todo.

        Não é fácil saber muito sobre o grupo. Eles são como uma organização secreta, com regras próprias e maneiras exclusivas de tratamento entre si. No começo a maioria deles possuía ficha policial, e por um período não muito distante tinham fama de motoqueiros estupradores. Ter um bando de Hell's Angels passando por sua cidade era sinônimo de confusão. Bêbados e chapados o dia inteiro, se metiam em brigas e eram imprevisíveis.

        Os Angels ainda são considerados um bando de criminosos extremamente perigoso, envolvidos em diversos delitos pelo mundo. No Canadá, por exemplo, eles são responsáveis por 90% do trafico de drogas e da prostituição. A maioria das prostitutas são menores de idade que os motoqueiros viciam em heroína, havendo muitos casos de escravidão sexual.

        Antigamente esses motoqueiros não eram aceitos pelo Clube de Motoqueiros da Harley Davidson pela má conduta, e impressionavam por sua maneira pós-apocalíptica de agir. Todos barbudos e fedidos, faziam coisas como dar beijos de língua na frente das câmeras de tevê e exibir suas tatuagens bizarras. Frases como "chupo bocetas menstruadas" eram uma marca dos Hell's Angels.

       A jaqueta de um Hell's Angels é uma marca especial deles. Ela é de jeans ou couro, sem magas e com o emblema do bando nas costas. Essas jaquetas jamais são lavadas. Quando você entra no bando, eles fazem uma jaqueta dessas para você. Mas não é apenas fazer ela, ela precisa passar por um ritual. Era costume deixá-las por dias no chão de uma oficina para sujar com o óleo dos motores, e depois dar um banho de urina e fezes. O Angel tinha que usar ela assim até o fedor se tornar suportável.

Fonte: L&PM Pocket
       Os grupos dos Angels eram conhecido pela violência, e se metiam em brigas com imensa frequência.Outro costume deles era usar correias de motocicleta ao invés de cinto para calças. Assim eles teriam uma arma garantida em uma situação de confronto.

       A banda Rolling Stones uma vez tentou contratar os Hell's Angels para fazer a segurança de um concerto em 1969, na Califórnia. O show terminou com quatro mortos, um deles esfaqueado pela segurança. Uma grávida foi atingida na cabeça por uma garrafa de cerveja atirada por um Angel e acabou no hospital com traumatismo craniano. E depois que uma das motocicletas foi derrubada, um dos Hell's Angels subiu no palco e espancou Marty Balin, vocalista do Jefferson Airplane, até deixá-lo inconsciente.


        Na mesma década do show com os Rolling Stones, o escritor norte-americano, Hunter S. Thompson acompanhou os Angels em sua fase mais popular. Munido de gravador e câmera fotográfica, o jornalista fez um registro detalhado e profundo do fenômeno da gangue de motoqueiros.  As excentricidade do grupo, como a prática de sexo grupal em público, seus confrontos com o governo, e até um sujeito que conseguia arrancar os olhos das pessoas com um golpe de karatê estão no livro.

Fontes: Livro "Hell's Angels" e  The Richest